quinta-feira, 31 de janeiro de 2008




Sim, afinal ainda sei correr, ainda sei sentir o sangue a correr nas veias e a água com sal a passar nas guelras. O meu coração ainda bombeia e o meu sorriso ainda se rasga. Ao ver o vai vem das ondas, ao ver o calor da amizade, ao ver as minhas gatas a brincarem com uma bola improvisada, ao lembrar-me de um dia de sol em que estive nua na alma e fiz amor com o céu, ao ver uma mãe ir para a praia com os seus três filhos e o cão, ao ver uma flor a nascer no meu vaso de casa, ao ver a alegria da minha avó quando me vê, ao ver o rio ao fundo da rua do Alecrim, ao lembrar-me de um jantar a três na rua do coliseu, ao lembrar-me de quando a minha manga pegou fogo numa viagem para Mértola, ao lembrar-me do Bóris enjoado numa viagem de muitas curvas, ao lembrar-me de dançar ao som de 80's com um rapaz lindo de morrer, ao lembrar-me da minha mãe a sorrir e do meu pai a sorrir por a beijar, ao lembrar-me dos pirilampos a dançarem à minha volta e alguém me pegar na mão para dançar, ao lembrar-me de um lusitano a tocar gaita no topo do monte, ao lembrar-me de um misógeno que um dia me beijou, ao lembrar-me do sorriso terno numa poltrona da américa do sul, ao lembrar-me da chama de miúdos a fazerem música com o coração, ao lembrar-me da juventude aos 44 anos, ao lembrar-me das medalhas a tilintarem nas minhas ancas, ao lembrar-me de todos os meus manos e manas, filhos, mães e pais que fui descobrindo ao longo da vida e, ao pensar que, quem percebe o que escrevi, é quem esteve ao meu lado a trepar esta escada que é a vida. Bem hajam.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008


Adeus minha doce nina, pequena lua, vais brincar com os anjos do céu.

domingo, 27 de janeiro de 2008


Há sempre uma altura para partir...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

La Loba


Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão a vaguear ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e consersa especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. A sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que a sua especialidade reside nos lobos.
Ela arrasta-se sorrateiramente e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta-se junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela levanta-se e aproxima-se da criatura, ergue os seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a forrar-se de carne, e que a criatura começa a cobrir-se de pêlos. La Loba canta um pouco mais e uma proporção maior da criatura ganha vida. O seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai a correr pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre o seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livremente na direcção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se estiver deambulando pelo deserto, por volta do pôr do sol e, quem sabe, um pouco perdido, cansado, sem dúvida tem sorte, porque La Loba pode simpatizar consigo e lhe ensinar algo – algo da alma.

In “Mulheres que correm com os lobos”,

de Clarissa Pinkola Estés

vida morte vida

A doce amargura
de te ver rasgado e torturado
Existe em mim um bordado
Que com peso a agulha vai desenhando
no meu corpo.
A linha atravessa pele e carne
E a flor vai-se formando
Misturada e suportada
pela dor e pelo sangue que escorre
A bela flor
De mim mulher
Ciclicamente, para algo nascer, algo tem de morrer.

Aurora

Da fonte se fez o regato
E com o sol se doirou.
Da noite se fez a aurora
E com os pássaros clareou.

Do teu sorriso se fez o meu
E com o teu olhar se enamorou
Da tua saudade se fez meu viver
E com ela se findou.

Para ele

I could gather up
My battalion of friends
They would protect me
With their shields of silver
But the only thing
That I’m missing is you
Is you

They can wrap me in their hugs
They can sing me songs
But the only thing
That I’m missing is you
Is you

Put my body to sleep
Kiss my forehead
Dance with me
And your smile…
Your strength…
Your scent…
Your eyes…
You are everything I want
Every thing I need
And the only thing that I don’t have is you
Is you

We never danced in the moonlight
My faeries never showed when you were here
But I don’t care
I still want you
For why I don’t know
‘Cause you still made my heart sing
‘Cause you still made my heart ring

Maybe I should care about the loneliness
Maybe I should care that I felt alone
But still my heart wants you
But still I’m emptier when you’re gone.

Doce


Acabei de cantar uma canção de embalar à Bolacha, enquanto dançava devagarinho com ela nos meus braços e ela deixou-se acalmar, quase adormecendo. O amor é a chave para tudo.

Bicho-lobo

É um pranto sentido o rio turvo de lágrimas
Que de meus olhos se aparta
Para minhas faces inundar
Quando pensava que tinha descoberto as regras da vida,
Vejo-me de novo perdida e sem deus.
O meu bicho lobo voou para longe, não o vejo nas faces que encontro, não o espero a cada esquina que torno. O meu anjo está sem rosto, sem luz definida.

E porquê continuar a vida, qual é este mistério que nos faz subsistir mesmo sem ter motivos para acordar de manhã? Porque não é o trabalho que me dá ânimo, não são as compras que me dão ânimo, não é esta era tecnológica e rápida demais que me dá ânimo. Não quero os telemóveis, as botas modernas, os encontros fashion no café do Chiado, nem sequer quero artistas. Quero voltar para onde o meu corpo é apenas matéria, as areias do deserto, a casca da árvore, a intensidade do sol e o sal do mar. Não consigo descansar. Não é aqui que quero estar. Não é esta vida que nem sei quando escolhi. Onde está o meu bicho homem para me levar, para me fazer sentir com sentido, onde estão as certezas, as convicções no amor? Por que é que eu não percebo nada? E porque não há ninguém para me responder? Porque me sinto tão só? Nasci para navegar para sempre sozinha? Não quero… Queria… amor, calor, folhas em ramos viçosos.

Bicho homem, és tu, ou sou eu? És ele, ou sou eu? Onde estás para perseguir a minha carne? Não consigo viver se não estiver a jogar contigo.