quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

La Loba


Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão a vaguear ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e consersa especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. A sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que a sua especialidade reside nos lobos.
Ela arrasta-se sorrateiramente e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta-se junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela levanta-se e aproxima-se da criatura, ergue os seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a forrar-se de carne, e que a criatura começa a cobrir-se de pêlos. La Loba canta um pouco mais e uma proporção maior da criatura ganha vida. O seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai a correr pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre o seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livremente na direcção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se estiver deambulando pelo deserto, por volta do pôr do sol e, quem sabe, um pouco perdido, cansado, sem dúvida tem sorte, porque La Loba pode simpatizar consigo e lhe ensinar algo – algo da alma.

In “Mulheres que correm com os lobos”,

de Clarissa Pinkola Estés

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